O Plano Safra 2026/27, anunciado pelo governo federal nesta terça-feira, 30 de junho, gerou preocupação no Sistema FAEP. A entidade avalia que as condições de acesso ao crédito rural ainda precisam estar mais alinhadas à realidade dos produtores.
O governo federal anunciou R$ 525,1 bilhões para o financiamento da agricultura empresarial. O valor representa aumento de 1,7% em relação aos R$ 516,2 bilhões da safra anterior.
Somados aos R$ 85 bilhões destinados à agricultura familiar, os recursos chegam a R$ 610 bilhões. Apesar do montante recorde, o valor ficou abaixo dos R$ 670 bilhões defendidos pelo Sistema FAEP e outras entidades representativas do Paraná.
FAEP cobra condições compatíveis com o campo
Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, o volume de recursos só terá efeito prático se o dinheiro chegar aos produtores em condições viáveis. Segundo ele, juros elevados e dificuldades de contratação podem limitar o impacto do plano.
“De nada adianta divulgar um Plano Safra com valor recorde se não há mecanismos para que isso se transforme em investimentos no campo. Não passa de pura ilusão, de um número no papel”, destacou.
Meneguette afirmou que o setor precisa de juros, linhas e ferramentas adequadas à realidade da produção rural. Além disso, citou preocupação com o acesso ao crédito e com os cortes no orçamento do seguro rural.
“Nossa preocupação envolve os juros ainda altos e as dificuldades que os nossos produtores rurais estão tendo para acessar as linhas, além dos consecutivos cortes no orçamento, principalmente do seguro rural”, complementou.
Entidades haviam pedido mais recursos
Em fevereiro, o Sistema FAEP, o Sistema Ocepar, a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná encaminharam propostas ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
O documento defendia mais recursos para o Plano Safra, juros menores, fortalecimento do Seguro Rural e mecanismos para renegociação das dívidas dos produtores.
Na avaliação das entidades, esses pontos são essenciais para garantir a continuidade da produção em um cenário de custos elevados, perdas climáticas e maior endividamento no campo.
Juros ficaram acima do defendido
No plano anunciado, os juros das linhas de custeio para grandes produtores ficaram em 12,5% ao ano. Para médios produtores enquadrados no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural, o Pronamp, a taxa ficou em 9% ao ano.
O Sistema FAEP defendia juros máximos de 10,5% nas linhas de crédito e de 7% para o Pronamp. Para a entidade, embora tenha ocorrido redução em relação ao ciclo anterior, as taxas ainda permanecem elevadas.
“Embora tenha havido redução em relação ao ciclo anterior, as taxas permanecem altas. Em um cenário marcado por juros elevados, margens de lucro reduzidas, sucessivas perdas climáticas e aumento do endividamento no campo, a disponibilidade de recursos, mesmo sendo recorde, perde relevância caso as linhas de financiamento permaneçam pouco atrativas ou inacessíveis”, afirmou Meneguette.
Pronamp terá R$ 72,6 bilhões
Para o Plano Safra 2026/27, o governo federal vai disponibilizar R$ 72,6 bilhões para o Pronamp, em linhas com taxas controladas. Os financiamentos do programa terão juros de 9% ao ano.
O limite de enquadramento foi mantido em renda bruta anual de até R$ 3,5 milhões. Além disso, produtores enquadrados no programa poderão financiar a aquisição de matrizes reprodutoras.
As operações de comercialização também passarão a contar com a mesma taxa aplicada ao custeio. Ainda assim, o Sistema FAEP avalia que o crédito precisa ser mais acessível para alcançar os produtores.
Contratação abaixo do previsto preocupa
Meneguette destacou que o Plano Safra 2025/26 contratou menos de 80% do volume disponibilizado. Para ele, esse dado demonstra que o anúncio de recursos elevados não garante, por si só, a efetiva contratação do crédito.
“O Plano Safra 2025/26 contratou menos de 80% do volume disponibilizado, demonstrando que não adianta muito recurso se o crédito não está sendo contratado”, disse.
Segundo o dirigente, o produtor rural chega ao novo ciclo pressionado pelo endividamento. Sem linhas atrativas e sem um seguro rural fortalecido, qualquer frustração de safra pode comprometer a quitação dos financiamentos.
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Renegociação de dívidas ficou fora do anúncio
Outro ponto considerado essencial pelo Sistema FAEP é a criação de uma política estruturada para renegociação dos passivos acumulados pelos produtores nos últimos anos. O tema, porém, não foi contemplado no lançamento do Plano Safra.
Para a entidade, a medida seria importante para dar fôlego financeiro ao setor produtivo. O campo enfrentou sucessivas quebras de safra, aumento de custos e margens mais apertadas.
“O setor passou por sucessivas quebras de safra, acumula endividamento e precisa de fôlego para continuar produzindo, não de novos passivos que possam comprometer ainda mais sua capacidade de investimento”, destacou Meneguette.
Seguro rural não entrou no lançamento
O seguro rural também preocupa o Sistema FAEP. Apesar da importância da ferramenta para a agropecuária nacional, o tema não fez parte do lançamento do Plano Safra 2026/27.
A avaliação ocorre em um cenário de cortes consecutivos no orçamento destinado à proteção das lavouras. A entidade havia solicitado R$ 4 bilhões para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural.
Para o Sistema FAEP, o fortalecimento do seguro rural deve ser prioridade da política agrícola brasileira. A ferramenta garante renda ao produtor em anos de perdas e reduz o risco de inadimplência.
Entidade defende proteção ao produtor
Meneguette afirmou que o seguro rural também interessa às instituições financeiras, pois aumenta a segurança de pagamento dos financiamentos. Segundo ele, a falta de investimento nessa política deixa agricultores e pecuaristas mais vulneráveis.
“O primeiro interessado em que o produtor tenha seguro rural é o banco, porque isso garante que o financiamento será pago. O produtor também ganha essa segurança”, afirmou.
“Quando o governo não investe no seguro rural, deixa os agricultores e pecuaristas desamparados e coloca em risco a agropecuária do país”, concluiu Meneguette.
Para o Sistema FAEP, o Plano Safra 2026/27 precisa ir além do volume recorde anunciado. A entidade defende que os recursos tenham juros, condições de acesso, seguro rural e mecanismos de renegociação capazes de atender a realidade econômica do campo.
Fonte: diariodosudoeste.com.br












