Looksmaxxing expõe jovens a riscos físicos e mentais

Looksmaxxing expõe jovens a riscos físicos e mentais

Tendência difundida nas redes incentiva obsessão pela aparência, uso de hormônios e práticas sem comprovação científica

mãos segurando frasco e fita métrica
Looksmaxxing incentiva homens jovens a perseguirem padrões de músculos, altura e formato do rosto difundidos nas redes sociais.
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O looksmaxxing, tendência estética disseminada nas redes sociais, incentiva adolescentes e homens jovens a buscar músculos aparentes, mandíbula marcada e baixo percentual de gordura. Especialistas alertam que a obsessão pelo visual pode estimular autolesões, dietas restritivas, exercícios compulsivos, cirurgias invasivas e uso irregular de hormônios.

O termo pode ser traduzido como “maximização visual” e parte da ideia de que a aparência determina o sucesso amoroso, profissional e social de um homem. O movimento é difundido principalmente por influenciadores ligados à machosfera, conjunto de comunidades digitais associado a modelos rígidos de masculinidade.

Embora algumas recomendações envolvam cuidados comuns, como musculação e atenção à pele, esses hábitos podem ser praticados com frequência ou intensidade excessivas. Outros conteúdos estimulam comportamentos sem comprovação científica e com potencial de causar danos permanentes.

Práticas incluem hormônios e golpes no rosto

Entre as práticas divulgadas estão o uso de esteroides anabolizantes, cirurgias invasivas para aumentar a altura e o chamado bone smashing.

No bone smashing, a pessoa golpeia repetidamente os próprios ossos do rosto com a intenção de tornar a mandíbula mais marcada. A prática não possui comprovação científica e pode causar lesões.

“Os adeptos do bone smashing acreditam, sem amparo em evidências científicas, que, ao produzir microfraturas em seus ossos, eles crescerão mais salientes, dando um aspecto mais ‘masculino’ aos seus maxilares. Porém, mesmo que as pessoas apliquem golpes relativamente leves no rosto, fazer isso certamente prejudica o corpo”, afirmou o sociólogo Michael Halpin, professor da Universidade de Dalhousie, no Canadá.

Um estudo publicado em 2025 na revista Sociology of Health & Illness analisou mais de 8 mil comentários em fóruns sobre looksmaxxing. A pesquisa identificou críticas severas contra pessoas que não atendiam ao padrão de aparência considerado viril.

Os espaços também apresentavam insultos, sugestões explícitas de autolesão e incentivo ao uso indiscriminado de hormônios.

“Não há nada de errado em buscar o autodesenvolvimento e realizar atividades de autocuidado. Contudo, não é isso o que está acontecendo nessas comunidades”, disse Halpin à Agência Einstein.

Segundo o pesquisador, os participantes passam a acreditar que apenas a aparência importa, transformando o cuidado pessoal em uma busca obsessiva por aceitação.

Adolescentes estão mais vulneráveis

A adolescência é marcada pela construção da identidade, da imagem corporal e das relações sociais. Nessa fase, é comum que os jovens experimentem estilos, pratiquem esportes e demonstrem preocupação com a aparência.

O problema surge quando o visual se torna a principal medida de valor pessoal e provoca vergonha, ansiedade, tristeza, isolamento ou queda da autoestima.

“Quando falamos em um cuidado saudável com a aparência, estamos nos referindo a uma vaidade que melhora o bem-estar geral e a autoestima, coexistindo com outras fontes de construção de identidade, como amizades, esportes, estudos e valores pessoais”, explicou o psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental.

Segundo Zoldan, grupos incel e redpill podem atrair jovens que enfrentam solidão, insegurança, rejeição ou sensação de fracasso. Essas comunidades oferecem pertencimento, mas atribuem problemas complexos exclusivamente a características físicas.

“O problema é que essa acolhida ocorre por meio de uma ideologia extremista, que, em vez de reconhecer que relacionamentos são complexos, diz que a rejeição aconteceu porque a pessoa não é alta, não tem músculos ou não possui uma mandíbula masculina”, afirmou.

Comparações ampliam sofrimento psicológico

A exposição a corpos idealizados não provoca, isoladamente, um transtorno mental. No entanto, pode aumentar o risco de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e dismorfia corporal.

O uso intenso das redes sociais amplia o número de pessoas com quem o usuário se compara diariamente. Filtros, edições de imagem e conteúdos selecionados por algoritmos também favorecem a percepção de inadequação.

Quando a aparência ocupa o centro da vida, pode ocorrer a auto-objetificação. Nesse processo, a pessoa deixa de reconhecer suas diferentes qualidades e passa a se perceber apenas como um corpo submetido à avaliação dos outros.

Uma pesquisa publicada em 2022 na revista Current Opinion in Psychology apontou que o uso abusivo das redes pode prejudicar a autoestima. A busca por curtidas, comentários e seguidores torna a percepção de valor pessoal dependente de uma validação externa e instável.

A vigilância constante sobre o corpo, com fotografias repetidas, controle do peso e monitoramento das interações nas redes, também pode aumentar o estresse.

Esse comportamento pode favorecer anorexia, bulimia, compulsão alimentar e adesão a dietas restritivas.

Anabolizantes afetam coração e cérebro

O uso de hormônios sem indicação e acompanhamento médico está entre os principais riscos físicos associados ao looksmaxxing.

A endocrinologista Andréa Messias Britto Fioretti, coordenadora do departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, afirma que cresceu a procura por esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento e insulina para ganho de massa muscular.

“Nenhuma dessas substâncias é indicada para esse objetivo, nem proporciona melhora estética sem provocar efeitos colaterais danosos”, disse.

Os efeitos adversos incluem cardiomiopatia hipertrófica, aumento das células vermelhas do sangue e alterações nos níveis de colesterol. Os anabolizantes elevam o LDL e reduzem o HDL, aumentando o risco de infarto.

As substâncias também podem provocar alterações cerebrais, reduzir a memória e a cognição e aumentar o risco de dependência.

Outros efeitos possíveis são acne, queda de cabelo, lesões no fígado, trombose, tumores e maior risco de lesões. Nos homens, o uso também pode provocar atrofia testicular e infertilidade.

Mudanças de comportamento exigem atenção

Dietas muito restritivas, exercícios compulsivos, interesse repentino por procedimentos estéticos e mudanças corporais incompatíveis com a rotina podem indicar envolvimento com o looksmaxxing.

Também devem chamar a atenção o isolamento, a vergonha persistente, a ansiedade intensa e a crença de que a vida somente melhorará depois de uma transformação física.

“Pais e responsáveis precisam estar atentos às mudanças de seus filhos. Eles também devem observar as informações às quais os adolescentes estão sendo expostos, bem como as companhias e os grupos com quem convivem”, orientou Andréa Fioretti.

Os especialistas recomendam ampliar as fontes de autoestima para além da aparência, estimular atividades voltadas ao prazer e à convivência social e conversar sobre filtros, algoritmos e padrões irreais de beleza.

“Não é a preocupação com a aparência que determina a necessidade de ajuda profissional, mas o sofrimento e o prejuízo funcional decorrentes dessa preocupação”, afirmou Luiz Zoldan.

Quando a obsessão provoca isolamento, comportamentos compulsivos ou prejuízo à vida escolar e social, a orientação é buscar atendimento psicológico ou psiquiátrico.

Para Michael Halpin, o diálogo com adolescentes e jovens é uma das principais formas de prevenção.

“Uma das melhores coisas que você pode fazer é conversar sobre essas questões com os jovens, para garantir que eles estejam recebendo orientação e apoio de pessoas fora da machosfera. Conversa sobre positividade corporal é um ótimo começo”, afirmou.

Fonte: Agência Einstein


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