‘O Brasil é um país sem memória’, diz a cineasta Lúcia Murat

‘O Brasil é um país sem memória’, diz a cineasta Lúcia Murat

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Há mais passado que futuro – a frase, a afirmação?, também é o título de uma peça que está na origem de Ana. Sem Título, o novo longa de Lúcia Murat que chegou aos cinemas no final de julho. Lúcia, guerreira, guerrilheira. Nos anos 1960, ela militou no movimento estudantil, integrou uma organização clandestina, foi presa e torturada, mas não se exilou. Aos 72 anos, e se preparando para iniciar novo filme, Lúcia sabe que ainda tem um futuro pela frente – planos não faltam -, mas também tem mais passado.
Seu cinema tem abordado questões de gênero – o feminismo – e a política atravessa todos. A ditadura e seu cortejo de horrores. Ela explica a gênese de Ana: “A peça despertou alguma coisa muito importante em mim, mas o que me atraiu foi o dispositivo. Mulheres, artistas plásticas latino-americanas, trocam cartas entre elas e foi esse dispositivo que me atraiu. Adquiri os direitos já pensando em fazer um filme. Escrevi o roteiro com Tatiana Salem Levy. O ponto de partida foi uma exposição de artistas latinas nos EUA. Pedi aos curadores o catálogo para saber mais sobre essas mulheres e suas obras. O projeto começou assim, livremente adaptado da peça.”
Ao longo de sua trajetória, Lúcia foi jornalista, antes de ser cineasta. O cinema tornou-se não apenas ferramenta de investigação da realidade como instrumento de vida, de resistência, para ela. “Digo para a minha filha (a também cineasta Júlia Murat) que já enfrentamos a ditadura e Collor. Isso também vai passar.” Isso é o governo de Jair Bolsonaro, que já era presidente quando Lúcia filmou Ana, em 2019. Em sua obra, e desde o primeiro longa, Quero Te Ver Viva, ela tem refletido sobre a história que viveu. Manter viva a memória da resistência é uma necessidade vital. “O Brasil é um país sem memória. No Chile, na Argentina, no México, sempre houve movimentos para manter a memória ativa, até para impedir que as coisas se repitam. No Brasil, não. Foi a falta de educação, de museus, que permitiu que um homem como Bolsonaro, elogiando a ditadura e a tortura, chegasse ao poder. É a nossa tragédia.”
Seguindo a trilha das cartas, Lúcia e Tatiana escreveram o roteiro. “O cinema permite à gente viajar, e Ana assumiu o formato de um road movie. Éramos uma equipe pequena, de quatro pessoas e em cada lugar – México, Buenos Aires, Santiago, Dom Pedrito, no interior do Rio Grande do Sul – agregávamos o pessoal local. Tatiana temia que o nosso roteiro fosse sendo enfraquecido e até anulado pelas circunstâncias das filmagens locais e das entrevistas que fazíamos, mas não. Durante todo o tempo, o grande desafio, e o grande aprendizado, foi fazer com que toda a parte encenada parecesse documentário. Foi um grande trabalho de Léo Bittencourt (o diretor de fotografia).”
No formato – o dispositivo – adotado por Lúcia, uma atriz, Stella Rabello, segue a trilha de uma das artistas que surgem com a exposição, e as cartas. Além de ser mulher – e Lúcia viveu na pele o abuso dos torturadores -, Ana é negra e lésbica. A personagem exigia uma atriz potente, e Lúcia a conseguiu. Roberta Estrela D’Alva tem a força que o papel exige. Suas performances batem na tela com intensidade. O feminismo se faz presente em cada cena. É preciso estar atento e forte, como na letra da música. Aliás, a música. A trilha viaja pelo cancioneiro latino, com participações de Mercedes Sosa e do Quilapayún, Vamos, Mujer!, da Cantata de Santa Maria Iquique. ‘Vamos, mujer, partamos a la ciudad/ Todo será distinto, no hay que dudar… Toma mujer, mi manta te abrigará…”
Lúcia – “Essa condição secundária da mulher precisa ser denunciada. A própria Frida Khalo, uma das artistas mais importantes do século passado, quando chegou à França era tratada como Madame Rivera, por sua ligação com Diogo Rivera”. A par das encenações, o filme recorre a extenso material de arquivo em cenas no Estádio Nacional, de Santiago, onde o General Pinochet confinou oponentes do golpe, e no México, onde os protestos contra a realização dos Jogos Olímpicos de 1968 levaram ao massacre de Tlatelolco, em que morreram 300 pessoas. Lúcia viveu intensamente aquela década. “Você (ela diz para o repórter) também é da geração dos 1960. Fomos marcados pela resistência e a nossa formação veio através da nouvelle vague, do Cinema Novo e do neorrealismo italiano. Por mais que as coisas tenham mudado, tudo isso permanece forte na consciência da gente. Há muita coisa no ar, e fazemos parte disso.”
Esse “muita coisa no ar” tanto pode ser a pandemia e seus efeitos – no Brasil e no mundo -, como a parte essencialmente brasileira do horror, o (des)governo Bolsonaro. “Meus filmes anteriores tiveram muita exposição em festivais e encontros. O Ana foi ao Festival de Moscou, mas infelizmente não pude ir por causa da pandemia e só tenho as informações que recebi sobre a acolhida. Gostaria de ter estado lá, de ter ido a outros lugares para discutir o filme, para sentir o público. Ele ia para Havana, mas o festival foi cancelado. Acho que teria sido muito rico viver o Ana em sua relação mais plena com a América Latina.”
A guerrilheira cultural que Lúcia continua sendo, e será sempre, foi contemplada num edital da Prefeitura de Niterói, no Estado do Rio. “O prefeito é progressista, sabe a importância da cultura e do cinema e abriu esse edital. Estou trabalhando nos últimos retoques do roteiro para filmar logo que as condições permitirem.” Será uma ficção – Ana também é, apesar do formato. Lúcia Murat nunca esteve mais consciente, como mulher e artista. “Não podemos desistir”, arremata.

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