A medalha de Simone Biles
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Jorge Miklos

No contexto das Olimpíadas de Tóquio em 2021, a atleta estadunidense Simone Biles desistiu de participar da final do solo da modalidade. Biles era um dos grandes símbolos dos jogos. Seu desempenho individual era o mais esperado. Diante de tamanha pressão, ela preferiu se resguardar dizendo: “Temos que proteger nossas mentes e corpos, não é apenas ir lá [competir] e fazer o que o mundo quer que façamos. Nós não somos apenas atletas, no fim do dia nós somos pessoas e, às vezes, temos que dar um passo atrás”.

Penso que Biles é a última romântica que sobreviveu no mundo pós-moderno. Romantismo foi o nome de um movimento intelectual que nasceu na Europa nos séculos XVIII e XIX e que teve como traço distintivo um mal-estar com a modernização burguesa. O romantismo foi uma reação contra a vida brutalizada pela fúria produtivista. Os românticos reuniram uma crítica contundente a um sistema tecnicista e sua crença na racionalidade instrumental, na tirania das métricas que constitui a lógica que toda vida é um meio para se alcançar um fim. Parece que todas as esferas da vida humana (inclusive o mundo dos afetos) é moldada pelo valor da alta performance. Damos nota aos serviços. Quem é bem avaliado respondeu positivamente às expectativas das metas. Sem perceber, estamos avaliando pessoas. O ranking é o novo contrato social, indicando a uberização da vida, um sistema de julgamento para a qualidade do serviço prestado. Sobre isso vale a pena assistir o “Nosedive”, o primeiro episódio da terceira temporada da série antológica de ficção científica britânica Black Mirror, disponível no canal de streaming Netflix.

A ditadura das métricas e dos resultados tem gerado aquilo que o filósofo teuto-coreano Byung-Chul Han chamou de “A Sociedade do Cansaço”, que estabelece modos de vida que se expressam por um excesso ou tirania da positividade, produzindo sujeitos que devem buscar sempre superar-se com relação aos seus ganhos. Com isso, são engendradas subjetividades e sociabilidades agenciadas pela multitarefa e constante (auto)produção. Talvez por isso verifica-se um crescimento de casos de ansiedade e depressão desencadeados pela pressão imposta no mundo corporativo em que o normal é ser workaholic, uma pessoa que trabalha compulsivamente.

Românticos são pessoas como Biles, que fazem escolhas nas quais a vida não está pautada pela ética utilitária, competitiva e avaliada por resultados. Menos é mais. O exemplo de Biles nos convida a alinhar nossas vidas aos valores ecológicos, identificados com uma vida psíquica sustentável. Servir a propósitos comunitários e ter relações humanas saudáveis é a medalha de ouro que podemos conquistar na vida.

Analista junguiano e sociólogo. Graduado em História e Ciências Sociais. Especialista em Psicologia Analítica. Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Comunicação Social. Coordena uma pesquisa sobre as masculinidades contemporâneas


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