Pesquisa avalia percepção de alunos sobre bullying

Pesquisa avalia percepção de alunos sobre bullying

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Flori Antonio Tasca

Em edição de 2015 da revista “Estudos de Psicologia”, foi publicado o estudo “Análise do bullying escolar sob o enfoque da psicologia histórico-cultural”, de autoria de Marcos Vinicius Francisco e Renata Maria Coimbra Libório. Eles analisaram as percepções de seis estudantes do 9º ano de duas escolas públicas no Estado de São Paulo a respeito do bullying e suas formas de enfrentamento. O que se verificou é que as percepções e estratégias propostas ainda eram reducionistas e não focavam na origem do problema, desconsiderando os aspectos sociais e culturais.

Dois estudantes escolhidos eram possíveis agressores, dois eram possíveis vítimas e os outros dois eram possíveis observadores. Eles foram identificados em etapa anterior da pesquisa. A esses alunos foram exibidas ilustrações de dez situações de perseguição a um aluno. Todos destacaram as situações como algo ruim e negativo, com exceção de um possível agressor. Curiosamente, ele foi também o único que utilizou o termo bullying, dizendo já ter ouvido falar sobre isso na televisão. Os outros alunos falaram em “brincadeiras de mau gosto”, “ignorância”, “mal-entendido”, “violência”, “descaso”.

Os pesquisadores chamaram a atenção para o fato de que nenhum deles citou aspectos sociais na produção das formas de violência. Todos indicaram a existência de situações semelhantes em suas escolas. Em relação aos motivos para isso acontecer, falou-se em coisas como “não ir com a cara do outro”, “para se divertirem” e “para aparecerem”. As possíveis vítimas citaram os seus próprios casos, que não evidenciavam a motivação do agressor. Embora percebessem as situações de intimidação, os alunos não entendiam as causas e tampouco viam no bullying as influências do atual modelo de sociedade.

Em relação à busca de apoio para as situações de agressão, ficou evidente nas respostas o descrédito dos alunos em relação à escola, principalmente na figura de professores, diretores e coordenadores. A impressão de boa parte desses estudantes é que a escola não resolve nada. Um dos possíveis agressores disse que as vítimas deveriam recorrer à polícia. As possíveis vítimas demonstraram buscar apoio em suas próprias famílias.

Os pesquisadores observaram que a autoridade e identidade profissional dos professores estão cada vez mais fragilizadas por normas de gestão que lhes tiram a sua iniciativa e a autonomia. Essas situações imobilizariam os professores e produziriam um quadro de dificuldades em sua atuação profissional que não pode ser desconsiderado, de modo que não cabem críticas simplistas à atuação deles. Mas há grandes chances de um professor com uma formação esvaziada e superficial naturalizar os casos de bullying na escola.

Quando perguntados sobre o que fazer com os agressores, falou-se bastante em sanções como suspensão, expulsão ou transferência. Uma das vítimas falou que o melhor seria esquecer o que os agressores fazem e não dar bola. Os observadores, por sua vez, deram a entender que os agressores não precisam de ajuda e deveriam ser deixados de lado. As punições, embora bastante utilizadas, não atuam na origem do problema, pois muitas vezes apenas transferem as situações de violência de um lugar para o outro. Chamar a polícia seria uma medida extrema de controle disciplinar, evidência da crise da escola.

Os exemplos apontados pelos alunos reforçam a ideia de que a escola ainda tem muito o que pensar e problematizar sobre seu papel social nas práticas de controle de situações de violência, indisciplina e relacionamento entre estudantes. Para os autores, a escola deve funcionar como espaço de proteção e emancipação na vida dos alunos, auxiliando os alunos a romperem com a naturalização das situações de violência. Os estudantes devem entender as causas que determinam o bullying e a influência da sociedade.

Não caberia, na visão dos pesquisadores, uma abordagem individualista do bullying, que meramente busque responsabilizar agressores e vítimas, sem considerar a violência em um contexto mais amplo, bem como as contradições sociais. Afinal, as influências socioculturais podem demarcar as ações dos alunos e fazer com que reproduzam certos comportamentos aprendidos, como os que se valem da violência para resolver conflitos.

O uso das mídias é visto como importante para problematizar e prestar esclarecimentos sobre o bullying, mas, como dito pelos autores, isso não pode ser feito de uma maneira sensacionalista, como se vê muitas vezes no noticiário. Foi destacada a importância da educação escolar no processo de tomada de consciência, quando o indivíduo consegue ter o controle consciente das transformações, das circunstâncias e de si mesmo, o que faz com que supere a alienação. Por isso, é importante que a escola trabalhe questões mais estruturais relacionadas à produção do bullying, de modo que a violência não seja naturalizada e não se tenha a impressão de que nada pode ser feito para enfrentá-la.

Educador, Filósofo e Jurista. Diretor do Instituto Flamma – Educação Corporativa. Doutor em Direito das Relações Sociais pela Universidade Federal do Paraná, fa.tasca@tascaadvogados.adv.br


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